Diário de produção: Me vê arroz e feijão

Tudo começou ao acaso, mas como nada acontece ao acaso, foi mais ou menos assim:

Fiquei sabendo do festival de curtas, há mais ou menos uns três meses, por intermédio de amigos que trabalham no Polo Iguassu, entidade organizadora do evento, e fiquei realmente muito animado. “Um festival de curta-metragens em Foz do Iguaçu vai ser animal!”, pensei.

Inscrição – Mas nem passou pela minha cabeça em me inscrever no Curta Iguassu, na verdade deu aquela vontadezinha, eu confesso. Porém, é que a verdade não conseguiria formar  uma equipe boa a tempo. Deixei a ideia de lado, em stand-by.

Até que em uma tarde no Facebook – um cara que simplesmente sou fã e admiro muito o trabalho – o fotógrafo iguaçuense, Rafael Bechlin, me chamou no talk do Facebook e conversando sobre o Festival, me convidou para fazer parte da equipe que ele estava formando naquele exato momento, pelo próprio Facebook.

curta_iguassu

O Rafael convidou pessoas especiais. Pessoas não só apenas brilhantes profissionais, mas ótimos seres humanos. Todos ligados na área. Eu ficaria responsável pelo roteiro, pela formação em dramaturgia, obviamente. Estava montada a equipe “Quati Preto”.

Nos reunimos alguns dias antes do festival e trocamos ideias sobre o que possivelmente poderíamos fazer, mas, claro, tudo dependeria do tema sorteado. Mas mesmo assim fizemos uma brainstorm e tecemos alguns comentários.

Foi neste momento que surgiu a ideia de um curta que contaria a ideia de objetos/coisas e não de pessoas, porém essas coisas seria o reflexo das pessoas. A partir deste pequeno argumento as sugestões de cenas começaram a florir. Porém era só uma conversa de boteco.

Sorteio do tema – O sorteio dos temas para a produção do curta-metragem aconteceu no SESC, às 16h30. E no exato momento em que o Rafael revela o envelope o tema: Fluxos. Idas e vindas de várias faces” foi engraçado pq todos se entreolharam e pensaram exatamente na conversa que já tínhamos antes. Foi unânime, todos ficaram de acordo.

Tema Quati Preto

Com o tema em mãos, e com as devidas observações da organização do festival, fomos para o nosso Quartel General. A Loumar Turismo cedeu o espaço denominado “Loumar Plex”, é um sobradinho onde os funcionários da empresa comemoram aniversários e reuniões. Montamos ali uma central de produção, com direito a camarim e ilha de edição. E claro, o lugar para repor as baterias e dar uma descansada básica, pq as 48h seguintes, sabíamos, seriam desgastantes – físicamente falando.

Construção do roteiro – Chegamos no Loumar Plex animados, radiantes e cheios de energia. Estávamos transbordando ideias por todos os lados. Fizemos uma tempestade de projeções. E montamos uma lista de prioridades, dando o maior destaque para o MINIMALISMO. Decidimos por convicção montar um roteiro simples, sem fala, diálogos ou narrativa. Onde a produção, a fotografia e a continuidade seria o grande chamariz.

Roteiro 2

De posse destas infos sentei coloquei uma boa música para ouvir e escrevi um roteiro #1 em aproximadamente 40 minutos. Foi mais um indicativo do que um roteiro em si. Mas não é fácil montar um texto para não ser observado. Um roteiro transparente, onde as pessoas não o enxerguem e que ainda seja inteligente.

Lemos o Roteiro #1 fizemos algumas modificações em grupo e ok, roteiro aprovado. “Quando podemos começar as gravações?”, perguntou a produtora Maris Sampaio. “Agora mesmo”, disse animado, o Rafael Bechlin.

A produtora Lili Cristalvo separou o texto em cenas e fez o material descritivo a ser utilizado nas gravações. Fui logo escalado para fazer as primeiras gravações.

Puerto Iguazú – Tratei de dividir o roteiro em 3 partes: Peso // Guarani-Dolar // Real. As três principais moedas correntes na região trinacional. As primeiras cenas gravadas, ainda na quinta-feira (29) foi em Puerto Iguazú, representando a primeira parte, o Peso.

Gravando em Puerto Iguazú

Fui para casa me arrumar, conforme pediu a figurinista e maquiadora Joyce Warken. Passamos a fronteira. Gravamos a primeira cena na frente de um cassino. A continuidade seria um garotinho de rua pegando a moeda que eu deixei cair no chão. Foi aí que as produtoras Lili e Maris começaram a observar as crianças que estavam andando por ali perto.  Foi então que elas observaram um menino, mal vestido e bem sujo. Chegaram e pediram se ele toparia gravar conosco. Ele aceitou. Miguel de sobrenome Angel. Um anjo. Um menino atencioso e querido. Detalhista que só ele, o diretor e fotografo, Rafael Bechlin, repetiu exaustivamente as cenas com o Miguel. E o Miguel sempre atencioso e disposta a nos ajudar.

As produtoras descobriram que o Miguel mora em Wanda – uma região conhecida internacionalmente pela qualidade das pedras decorativas que explora. Ficamos todos surpresos com a história do menino Miguel. E até pensamos em voltar lá e fazer um longa da vida dele – mas isto é uma outra história.

Continuamos com as gravações, agora na Conveniencia Haus, ao lado do cassino no centro de Puerto Iguazú. Concluídas as cenas voltamos para o nosso QG. O Rafael descarregou as imagens e começou a montá-las conforme pedia o roteiro. Neste momento no relógio já era 3h da madrugada, mas em nossos espíritos marcava “temos que dar continuidade”.

Começamos a articular as cenas que iríamos gravar em Ciudad del Este, para a segunda parte do texto. “Guarani/Dolar”. O nosso diretor, o Rafael, sugeriu fazer um timelapse do amanhecer. Até ai tínhamos dúvida se conseguiríamos um amanhecer bonito, pois choveu na quinta-feira de tarde. A maquiadora Joyce sugeriu que fizessemos as imagens da sacada do seu apartamento, que fica próximo ao rio Paraná, com visão para a cidade fronteira.

Joyce, Rafael, Maris e Lili foram fazer o timelapse perto das 5h da manhã. Então nem é preciso falar que não durmimos nada nesta noite, não é?

Eu descansei um pouco, deitado no sofá do Loumar Plex, das 3h30 às 5h30. Não tomei banho, nem escovei os dentes, confesso.

Lá pelas 6h30 0 Paulinho chegou para ajudar na edição. E partimos para o Paraguai.

Ciudad del Este – Ciudad del Este é uma alegria para os fotógrafos, diretores de arte, figurinistas e apaixonados pela cinematografia de plantão. Ciudad del Este respira: “me filmem, por favor”. Ciudad del Este  tem uma peculiaridade exclusiva. Ali, o Rafael extraiu algumas texturas únicas daquele lugar. Valorizou a cultura oriental, a indígena e a local. Retratamos pequenos recortes, mas grandes significados.

Gravando no Paraguai e Brasil

Cruzamos a fronteira tão cedo, que às 10h30 já havíamos gravado tudo. Até 2 timelapses.

Voltamos para Foz. Fomos até o mercado Super Ghada – de especiarias médio-orientais. Um mercadinho especializado em comida árabe. Fomos recebidos pelo dono do local, um senhor. super gentil que permitiu que fizéssemos as gravações.

Era meio dia quando voltamos para o QG com 80% das imagens gravadas. Faltava só as últimas cenas.

Semáforo – Era a parte do roteiro onde todas as moedas se uniriam. O peso, o dólar, o guarani e o real se encontrariam em um menino de rua pedindo dinheiro no semáforo em Foz do Iguaçu. Eu sugeri o meu irmãozinho de 8 anos para fazer o papel do garoto de rua, mas nunca imaginei que ele serviria como uma luva.

O Allan realmente encarnou o personagem, e quando a Maris e a Lili pediam para ele fazer cara de triste, ele respirava fundo e mostrava aquela cara de dó. Foi lindinho.

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Gravar no semáforo não foi fácil. Exigiu atenção redobrada das produtoras, pois estávamos com uma criança em uma locação realmente perigosa. Em 1h que ficamos no cruzamento presenciamos quase duas batidas. Então as meninas ficaram expertas e sempre guiando os passos do Allan.

Após o cruzamento finalizamos as gravações no mercadinho na região central da cidade.

Voltamos para o QG, onde o Paulinho, o Douglas e o Rafa começaram a edição final. O Rafael e as meninas ainda esperaram o entardecer para pegar mais um timelapse da ponte da fraternidade.

Concluída a edição na sexta, o magnífico Vacca pegou o material para compor a trilha sonora.

EDIÇÃO DO CURTA

Trilha Sonora – Foi realmente o auge de nossa produção. Como o material foi editado no seco, para depois ser incluído a trilha, ficamos todos na expectativa de como seria o tema musical. O Vacca produziu a trilha em seu estúdio, ele nos contou que fez um material mais complexo, porém que no final não gostou pq não estava tão “minimalista”. Mais ou menos meia noite de sexta, ele apagou toda trilha que tinha produzido. “E comecei a fazer a coisa mais simples que eu sei: piano”, nos  revelou.

E realmente nos surpreendeu. Era aproximadamente 2h quando o Vacca voltou ao QG com a trilha pronta. O Paulinho colocou a trilha na timeline do projeto de edição e assistimos.

O resultado: lágrimas por todos os cantos. Foi realmente uma explosão de sentimentos, pq estávamos bastante à flor da pele.

Após o momento eufórico da produção, os gênios da edição fizeram os últimos retoques e voi-là. Ficou pronto o curta “Me vê arroz e feijão” às 4h da madruga de sábado.

Agradecimentos – Primeiramente à organização do Curta Iguassu por ter nos dado a possibilidade de organizar o grupo Quati Preto e participar deste festival. Em segundo lugar, agradeço imensamente ao Rafael Bechlin por reunir um grupo tão lindo, heterogéneo e homogéneo ao mesmo tempo. Em nenhum momento houve brigas, discussões ou pequenos desentendimentos. Agradecemos imensamente a Mídia Z por disponibilizar seus ótimos profissionais e equipamentos para a produção do curta.

Equipe Quati Preto

Um agradecimento especial também para todos que contribuíram com as gravações. As locações foram super gentis. Agradecemos também a Loumar Turismo que carinhosamente cedeu espaço para a equipe. Ao pequeno Miguel que contribuiu muito com a sua realidade. Ele me fez lembrar de uma declaração do Glauber Rocha. Que fala algo sobre documentar a realidade é a arte de fazer cinema. E o Miguel contribuiu de mais para nos animar a mostrar nossa realidade. E ao pequeno Allan, também um super muito obrigado, para dar todo o sentimento que gostaríamos ao curta.

Foi uma das experiências mais gratificantes que já tive em toda a minha vida. Foi simplesmente sensacional. Realizei um sonho.

Agradeço a Deus por este momento, agradeço aos novos amigos.

Rafael Bechlin
Maris Sampaio
Joyce Warken
Lilis Cristalvo
Vacca
Paulo Lisboa
Rudney de Paula
Douglas Camargo

Confira o resultado final:

CURTA METRAGEM | ME VÊ ARROZ E FEIJÃO from Rafael Bechlin on Vimeo.

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