Além do mar, meu leão

Quando criança, me imaginava montado em um leão, percorrendo os diversos países. Eu agarrado nas jubas do grande. Cresci, e não entendo o sentimento saudosista que sinto em relação aos sintomas da minha imaginação infantil. Quando lembro das histórias, mais vontade tenho de amadurecer na autenticidade das imagens das crianças

A jornada de crescimento não é nada fácil. O amadurecimento significa rompimento de barreiras e quebras de paredes dentro da casulo, por muitas vezes chamado coração.

Toda a necessidade de retorno às brincadeiras infantis, tornam-se uma fuga constante dos problemas de adulto. A fé, então, de criança, a acreditar em um mundo tão grande e impossível, dá lugar a sentimentos um pouco mais concreto. Daí é o problema, da imaginação ao raciocínio lógico.

Quem me conhece entende a forma simples como prego que a imaginação e a fantasia podem ser cooperadas com o pensamento lógico. Para se chegar ao pensamento lógico é preciso reconhecer que alguma coisa é possível, que se pode chegar ali de uma forma simples. Ora, a coerência persiste na harmonia e na conformidade, que não é nada mais que a simplicidade persuadida de coesão.

Esse último adjetivo, usado bastante no jornalismo, eu sempre admirei pela necessidade que ele tem em se aproximar das pessoas comuns,  ser coeso é dar conexão no texto com as pessoas que irão ler. Ser coeso é ser simples e a simplicidade é uma forma fantástica de se entendido com facilidade.

Crescer de uma forma simples, olhando para os acertos e erros do passado. Olhando focado nos sonhos do leão, me faz cada vez mais buscar a simplicidade para alcançar a perfeição.

A fantasia como mediadora da razão

Esopo está mais em foco na atualidade que na Grécia antiga. O escravo corcunda que foi dono de uma grande inteligência inaugurou um novo gênero literário em que seus personagens são animais – apesar de selvagens e irracionais na vida normal, falam, cometem erros, são sábios ou tolos exatamente como os homens.

Por meio das fábulas Esopo colocou todos os sentimentos humanos nos animais, as mais possíveis intrigas e todas as características de um ser pensante, sem agredir ninguém.

Na modernidade podemos observar os valores e regras para um bom comportamento, ou não, presente neste tipo de conto: a fábula. A fábula passou por modificações ao longo dos tempos. Pode-se citar o exemplo de Esopo, ele preferia não escrever suas histórias, somente as contava e pedia para que as pessoas as passassem adiante. Hoje é difícil conhecer algo semelhante, descartando as histórias folclóricas

A fábula moderna é a fantasia

Não há de se discutir que a leitura assume proporções na vida e nas atitudes das pessoas. Existe emoção e até mesmo mudanças de hábitos em uma leitura de uma passagem “sagrada”, por exemplo, ou até mesmo um artigo importante.

A leitura forma a opinião e a consciência de um indivíduo. Todavia o conto de fadas é uma das literaturas mais lidas, porém ultimamente tem se mostrado desfocado em seus exemplos como Harry Potter e o novo sucesso mundial Crepúsculo.

Houve tempos, e ainda sobrevive, que a fantasia era muito mais que apenas o conto de fadas, anões barbudos e animais falantes. O homem acrescentava a sua história como formador de mundos depositando nele todos os modelos morais que são apreciados. Era isso que Esopo fazia. Todas suas histórias continham uma moral, que cada pessoa usava sua experiência de vida para moldá-la as atitudes dos animais.

Para um dos maiores romancista fantástico, J. R. R. Tolkien, “o atrativo do conto de fadas consiste em que nele o homem cumpre de maneira mais plena sua função de ‘subcriador’, não faz um comentário sobre a vida, mas constrói, tanto quanto possível, um mundo subordinado que lhe é próprio”. Uma vez que essa é uma das funções características do ser humano na construção da narrativa.

Criando um novo mundo, o homem insere nele as influências psicológicas ou instintos bondosos e maldosos que o leitor sutilmente não consegue se livrar, pelo motivo que a leitura se utiliza da capacidade do inconsciente da memória que não é possível escapar, como as atitudes que o foram manifestados. Carl Jung diz que o conto de fadas “libera arquétipos que residem no inconsciente coletivo; e quando lemos um bom conto de fadas, estamos obedecendo ao antigo preceito ‘Conhece a ti mesmo’”.

Mundo falso

Acusam o conto de fadas de dar às crianças uma falsa impressão do mundo em que vivem. Nenhum outro tipo de literatura, porém, dá sentido contrário, uma impressão verdadeira.

O menino não despreza as florestas de verdade por ter lido sobre florestas encantadas, a leitura torna todas as florestas de verdade um pouco encantadas. O menino que lê uma história “real” que seja focada no sucesso se preocupa em alcançar esse objetivo e quando não lhe vem fica infeliz. O mesmo que lê conto de fadas fica feliz porque simplesmente deseja e se realiza no próprio ato de desejar. Sua mente não esteve centrada nele mesmo, e suas energias não estavam voltadas a uma realização, mas tenta tornar tudo mais simples e poético.

As histórias realistas tendem muito mais a enganar as crianças. Mesmo imaginando que o mundo real seja igual ao conto de fadas. As histórias reais em que as crianças passam por aventuras e sucessos que são possíveis, para não ultrapassarem as leis da natureza, mas quase infinitamente improváveis, tendem muito mais que os contos de fadas a criar falsas expectativas.

Para o escritor da série fantástica Crônicas de Nárnia Clive Staple Lewis, não só a fantasia como todo tipo de literário, com características fantásticas à presença de seres não-humanos que se comportam, em diversos graus, como os seres humanos: gigantes, anões e animais falantes, são no mínimo um signo admirável que veicula uma psicologia, uma tipologia de caráter de modo muito sucinto que o romancista, e que o romance ainda não pode atingir. Consideramos o Sr. Tumnus, o fauno de O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa, a criança que algum dia encontra o Sr. Tumnus guarda para sempre na intimidade um conhecimento da psicologia humana social inglesa de 1930 que não poderia adquirir de nenhum outro modo.

Educadores de todo o mundo reconhecem este recurso de implantação de regras por meio da literatura, mas a fantasia nem sempre foi a literatura preferida das crianças. Antigamente em todos os lugares e em todas as épocas os contos de fadas não eram feitos especialmente para crianças nem desfrutados exclusivamente por elas. Só se deslocou para a escola maternal quando caiu de moda nos círculos literários, tal como, nas casas vitorianas, a mobília que saia da tendência ia para os quartos das crianças. A verdade é que muitas crianças não gostam desse tipo de literatura, assim como muitas crianças não gostam de sofás de crina, de que muitos adultos gostam, como gostam de cadeiras de balanço. E todos aqueles que apreciam, sejam jovens ou velhos, provavelmente a apreciam pelo mesmo motivo. Mas aludimos à fantasia as crianças porque existe uma falsa concepção de amadurecimento. Somos acusados de retardamento porque não perdemos um gosto que tínhamos na infância, mas na verdade o retardamento consiste não em recusar-se a perder as coisas antigas, mas sim em não aceitar as novas. A sociedade nos impõe a razão e tudo que está fora das leis da natureza não existe ou não deveria existir, mas esquecem que para um amadurecimento social a imaginação é a capacidade de permitir a criação de um objeto através da mente e dos sentidos, chegando assim até a conclusão da razão.

Devemos agradecer Esopo, Lewis, Tolkien e a todos os escritores que usaram a fantasia para criar na mente das crianças e não tão crianças assim um amadurecimento imaginativo e psicológico, porque é impossível entender como Einstein e tantos outros nomes da via da razão mundial chegaram à suas conclusões e busca pela verdade sem usar uma importante ferramenta mediadora: a imaginação.