Quanto tempo temos?

“Deus está morto, Marx também e eu não estou me sentindo muito bem”

Era algo parecido com isso. Não sei onde li/vi/ouvi, mas me tocou muito de modo a percorrer toda a minha história. Desde a minha primeira consciência lúdica até o presente momento, onde digito este texto no frente a um monitor de 21 polegadas e um teclado preto, que tomo emprestado do meu trabalho.

Depois de uma longa viagem pelo meu tempo cheguei a uma conclusão do que a frase realmente quer dizer.

O problema não é que Deus está morto ou que foi enterrado. Ou que Marx está morto e enterrado. O problema da frase é o final: “eu não estou me sentindo muito bem”.

Mas eu pergunto para mim mesmo: “Pq o interlocutor não está bem se Deus e Marx estão mortos?”. Ele não deveria estar feliz? A final não é isso que a humanidade quer, se livrar de amarras?

A era que matou Deus e que também está enterrado a racionalidade na verdade não quer liberdade?

A liberdade está aí, e agora o que fazer com ela? Qual é o próximo passo? O que fazer antes do precipício?

Vivemos uma grande liberdade sexual e moral que sempre foi rogada. Porém a inquietude e desconforto parecem presentes em nossas vidas.

Agora a pergunta que não ousa calar: “Quanto tempo temos?”.

Para viver?
Para dar o seguinte passo?
Para sermos felizes?

Uma das características do nosso tempo é fugir dos paradigmas. Mas isso é um grande problema. Não estamos neste mundo para viver de luxo e consequentemente do tédio. Precisamos viver para lembrar do passado e projetar o futuro em um presente muito real.

A principal história do universo: a história humana

Depois de uma espera quase angustiante de 8 meses, assisti a estreia de Terrence Malick, conhecido como o recluso do cinema hollywoodiano.

A Árvore da Vida tenta retratar tudo nas telas do cinema: a história do universo, onde a chave principal da trama são as relações conturbadas do relacionamento familiar e principalmente a fé e/ou a falta dela.

Imagens grandieloquentes da criação do universo, passando até pela era dos dinaussauros ocupam o mesmo espaço na linha do tempo da montagem com os flashbacks e a vida de infância do personagem principal.

A grande sensibilidade do filme é conseguir, ou pelo menos tentar, revelar em imagens e dramaturgia o pensamento humano, sobre as conclusões que chegamos quando passamos por uma grande depressão, no caso do filme, a perda do filho mais novo.

O filme mostra que quando nos deparamos com a vida a falta da vida nos sentimos acuado e recorremos a Deus. A citação de Jó no começo do filme tem tudo a ver com o plano que o Homem traça na terra, é aí que encontrei o argumento do filme: Do mínimo possível ao máximo impreciso.

É preciso morrer para valorizar o que nos foi proposto – talvez o papo até aqui esteja bem religioso, então se você não se interessou não adianta nem seguir lendo. Primeiramente o cosmos está todo lá, quase intocável, mas o que faz do universo tão presente é a criação, que está em constante mutação ou recriação que continua em mutação, para nos proporcionar a vida, e nós temos dois modos de viver “o caminho da natureza ou o caminho da graça”, só precisamos escolher qual deles seguir.

“caminho da natureza” – O filme já nos diz que não é o mais fácil, o pai da família interpretado por Brad Pitt é durão e tenta de todas as formas educar os filhos com rigor e determinação quase militar, em uma das sequências o pai exclama: “É preciso muita determinação para vencer na vida”.

Do pólo oposto, a mãe ensina o “caminho da graça”, dá toques de ternura e mostra que a educação está na maternal conversa.

Enxerguei muita semelhança no filme com a direção de Lars Von Trier, onde coloca imagens para dizer um discurso. Até uma hora de duração, A Árvore da Vida não apresenta nenhum diálogo, e na segunda parte o espectador é convidado a mergulhar na vida da família.

Senti no filme um resgate muito forte pelos traumas freudianos, como a fuga à mãe lúdica, e o repúdio ao pai opressor, criando grandes esferas no adulto.

A menos que você ame, sua vida passará rapidamente

Em todo o momento evoca o passado, a sensação de se molhar na chuva, correr pela vizinhança sem se preocupar com o tempo, a nostalgia das brincadeiras infantis e o acolhimento familiar, por exemplo, sempre relacionando como a influência formador no caráter humano com o objetivo de pertencimento ao mundo de adulto.

Enfim, em uma determinada situação, o pai descobre que o amor deve ser valorizado, quando perde o emprego e enxerga nos filhos o único bem que realizou na vida.

Céu, transições e ponte

Na última parte do filme, o que talvez tenha ficado em dúvida durante todo o longa, a moral teológica da necessidade e existência de Deus é inflada.

Todos os personagens se encontram à beira do mar, em um ambiente que evoca o céu ou um espaço pós vida, e remete muito a uma cena do filme “Um Olhar do Paraíso” de Peter Jackson e Steven Spielberg.

Por final, entre muitos signos expostos, a cena que para mim foi a mais significativa. A última imagem do filme: uma ponte mostrando o elo entre este mundo e o próximo, encaixando perfeitamente todos os ensinamentos dados no filme, viver do modo da graça para se alcançar algum posto na vida.

Assim como Jó sofreu, é preciso sofrer e errar para reconhecer que esta vida é curta e é preciso amar para seguir em frente.