Matheus sempre vivia com um livro de baixo do braço. Por onde passava, em qualquer lugar, sentava e mergulhava no universo dos seus personagens. Vivia inventando histórias em sua mente também. Viajava em diversos mundos, dos livros e dos universos que criava. Ele estava tão submerso nos livros que pouco entendia o que estava passando na vida real, que o governo ditatorial de Afonso de Cezar havia abolido os livros de literatura de seu regime e a sua patrulha acabara de chegar no condado onde Matheus vivia.

Certo dia, Matheus chegava na biblioteca de sua escola para pegar mais um livro que imaginava que pudesse passar dias navegando em novas histórias, mas viu um povo meio estranho todos vestidos de um cintilante vermelho, de posse de rifles e incendiares automáticos, colocando fogo em todos os livros.

Uma emoção muito forte tomou conta de Matheus. Algo que ele nunca havia sentido. Era a raiva, ódio e algo que nem ele mesmo conseguia explicar.

A diretora da biblioteca, uma senhora que mantinha as tradições de contação de histórias toda quarta-feira explicou o que estava acontecendo.

Disse que além dos livros, escrever e contar histórias também estavam proibidos, de acordo com o novo decreto de Afonso de Cezar.

– Mas o que podemos fazer para acabar com essa crueldade, Dona Clotilde? – disse o pequeno Matheus.

– Não se pode fazer nada. Eles tem armas e a nova medida do governo é essa, meu jovem. – explicou a voz rouca da senhora.

“Eu não acredito… Existe algo que temos que fazer”, pensou Matheus, sentindo a garganta e o peito apertados.

O pequeno e corajoso jovem então saiu correndo em direção aos capangas do governo ditatorial e soltou um:

– Eu gostaria de me encontrar com o seu comandante! – Matheus exclamou.

– Saia daqui, pequeno. Porém, digo a você que qualquer morador do condado pode se comunicar com nosso general escrevendo uma carta… – Um soldado disse, entregando um pequeno cartão contendo um endereço postal.

Matheus pegou o cartão e sabia o que tinha que fazer. Foi correndo para casa. Ele tinha que ter uma explicação. Não era possível o que estava acontecendo. “Essa barbaridade tem que acabar agora”, pensou.

Matheus pegou então um lápis e uma folha de papel em branco e pôs a escrever. Redigiu 4 folhas – frente e verso. Quando acabou foi logo enviar a correspondência na agência postal que ficava ali, há 3 quadras do orfanato onde morava.

Se passando 3 dias, guardas apareceram na frente da casa de Matheus. O levaram para uma conversa com o grande general.

Em conversa particular. Sem a presença de mais ninguém, Matheus estava firme de suas convicções. Estava confiante e com a cabeça erguida. Era isso mesmo que ele queria.
Em certo ponto da conversa, Afonso de Cezar olhou friamente nos olhos do pequeno e disse:

– Eu reconheço uma boa proposta quando olho para ela. – E ordenou que levassem Matheus do gabinete que fedia a carpete e óleo combustível que mantinha as luminárias acesas.

Os livros voltaram a circular pelas bibliotecas, mas os amiguinhos de Matheus sentem a sua faltam, principalmente para brincar no parquinho todos os dias.

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