A lente soviética e o projeto russo

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Recentemente, adquiri uma Helios 44M-6 58mm, uma famosa lente soviética e, possivelmente, uma das lentes vintage mais populares do mundo.

A ideia era usá-la para fotografar o Iago, que havia compartilhado comigo um projeto de produção musical em russo. A estética da lente combinava perfeitamente com a atmosfera que imaginávamos para as imagens.

A Helios é conhecida principalmente pelo seu característico bokeh em espiral, efeito que aparece quando a lente é utilizada nas condições certas de luz, distância e composição.

Infelizmente, o exemplar que comprei apresentou um problema no mecanismo de abertura. Mas, antes de devolvê-lo ao vendedor, conseguimos aproveitar uma tarde de sábado para fazer as fotos em uma locação incrível na Avenida das Cataratas, em Foz do Iguaçu.

Mesmo com a limitação técnica, a lente entregou exatamente aquilo que buscávamos: imagens com personalidade, imperfeições e uma estética única.

Decidi utilizar a Helios 44M-6 adaptada à Leica SL (Typ 601). Um encontro curioso entre dois universos completamente diferentes: de um lado, uma câmera digital extremamente precisa, robusta e sofisticada; do outro, uma lente soviética antiga, conhecida tanto por sua personalidade visual quanto por suas limitações e imperfeições ópticas.

Para muitos, a qualidade técnica de uma lente como essa pode até ser considerada questionável quando comparada aos padrões atuais de nitidez, contraste e controle de aberrações. Mas foi justamente essa falta de perfeição que tornou a experiência tão interessante.

Fotografar com a Helios foi extremamente prazeroso, porque cada imagem parecia carregar uma assinatura própria, distante da estética excessivamente limpa e previsível das lentes modernas.

O sistema SL da Leica se mostrou especialmente adequado para esse tipo de experiência. A câmera oferece uma excelente adaptação ao uso de lentes vintage, principalmente pela qualidade do visor eletrônico e pelos recursos de auxílio ao foco manual. Isso permite trabalhar com lentes antigas de forma muito intuitiva, sem retirar delas aquilo que possuem de mais valioso: o caráter.

No fim, a Leica não tentou corrigir ou esconder as imperfeições da Helios. Ela simplesmente ofereceu a estrutura necessária para que essas características pudessem aparecer com clareza. Foi uma combinação entre precisão digital e imprevisibilidade analógica, entre tecnologia moderna e uma estética construída décadas atrás.

Realizar esse ensaio foi especialmente significativo para mim, porque representou uma oportunidade de sair da minha zona de conforto. Grande parte da minha experiência recente com fotografia está ligada ao registro de turistas nas Cataratas do Iguaçu, um trabalho que exige agilidade, atenção e consistência, mas que também segue uma dinâmica bastante específica.

Com esse projeto, pude desacelerar e experimentar a fotografia de uma maneira mais autoral. Tive liberdade para pensar na composição, explorar a luz, buscar diferentes enquadramentos e inserir um pouco mais da minha percepção criativa em cada imagem.

O uso de uma lente antiga tornou todo o processo ainda mais especial. Fotografar com controles totalmente manuais exige mais presença, paciência e intenção. É necessário observar com cuidado, ajustar o foco, compreender as limitações do equipamento e aceitar que nem tudo será perfeitamente previsível.

Talvez esteja justamente aí parte do encanto. A lente não entrega apenas uma imagem tecnicamente correta; ela também carrega marcas do tempo, imperfeições e características próprias que tornam cada fotografia menos automática e mais singular.

Saí desse ensaio com uma sensação profunda de realização. Mais do que produzir boas imagens, tive a oportunidade de reencontrar um lado criativo da fotografia que, muitas vezes, acaba ficando em segundo plano diante das demandas do cotidiano.

Obrigado pela confiança e pela oportunidade, Iago. Foi um prazer transformar essa ideia em imagens.

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