Por que, James Blake?

Desde que ele lançou Trying Times, tenho ouvido bastante e pensado em muitas coisas. Como um artista que em um dia está gravando com Travis Scott, no outro faz tecno e, no seguinte, lança um álbum tão intimista e confortante como esse?

Como você fez isso, James Blake? E por qual motivos o fez?

O mundo é obcecado por prateleiras. Queremos colocar cada artista, cada profissional e cada ideia em uma caixinha com etiqueta clara para saber exatamente o que esperar. O problema é que a criatividade e a própria vida não opera em linhas retas.

Quando a gente exige coerência estética ou profissional rígida, punimos a curiosidade. Por que um artista não pode flertar com a música eletrônica de pista e, no dia seguinte, criar algo cru e intimista?

Por que alguém precisa escolher uma única identidade para o resto da vida?

Rotular é um atalho cognitivo de quem observa, mas vira uma prisão para quem constrói. O verdadeiro valor está na liberdade de navegar por diferentes universos, repertórios e linguagens sem a obrigação de pedir licença ou dar explicações.

Durante muito tempo, sofri tentando afunilar a minha criatividade em um único caminho. Olhava para o meu repertório e via de tudo: colagem, pintura, recorte, fotografia, poesia, leitura… Uma imensidão de linguagens. Eu me cobrava por não conseguir me expressar de uma forma só, até entender que a minha essência é justamente essa multiplicidade.

Hoje, não tento mais me caber em uma gaveta; apenas me dou a liberdade de criar através do formato que meu corpo e minha mente pedem no momento.

Por isso que eu considero o meu repertório vasto, pois nunca me limitei a ler sobre apenas uma ótica. Eu acho que é preciso entender o contraditório entender o próximo e descobrir coisas novas.

Posso passar um dia tentando absorver a complexidade de um clássico e, no seguinte, me pegar analisando a simplicidade de uma canção popular. Não existe hierarquia na busca por sentido.

No final, cada manifestação artística é só alguém tentando traduzir as próprias dores com as ferramentas e o orçamento que tem em mãos.

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