Depois de 11 horas de voo o que eu mais queria era um banho quente, mas lembrei que estava na França – e que o banho poderia até ser quente, mas deveria ser muito rápido. Como em um flash, me veio a mente: “questão de cultura”. Aqui não preciso mais de um banho quente e demorado para me sentir bem, mas sim de uma tarde degustando queijos e tomando vinhos. Comecei a entender aquele termo, que até então povoava os livros.Em uma rápida busca no Google, “Choque Cultural” é definido como “quando uma pessoa é retirada de um meio cultural a que está acostumada, para viver em um outro país com hábitos, costumes e tradições diferentes”. Já na Wikipédia, o termo remete à ansiedade e sentimentos (de surpresa, desorientação, incerteza, confusão mental etc.) vivenciados quando as pessoas têm de operar dentro de uma cultura ou ambiente social.

Sei que em toda viagem que se faz, seja para o exterior ou mesmo para as regiões doBrasil, se está predisposto a ter algum choque de cultura. Na alimentação, linguagens e comportamento das pessoas, o mais curioso e engraçado, mesmo, é saber como essa pessoa passou por essas diferenças de costumes e como agiu com essa “confusão mental”.

No primeiro dia na França, meu senso de curiosidade estava aguçado. O de comunicação, porém, nem tanto. Fiquei com os olhos bem abertos, pois queria retirar dali toda informação visual possível. Após percorrer os olhos pelas ruas, não pude deixar de notar os carros estacionados nas calçadas. Coisa inadmissível no Brasil, não é? Pois muito comum na Europa, pela questão de falta de espaço. Motoristas agradecem o estacionamento na calçada e pedestres não reclamam. Estranho para nós – pelo menos foi muito diferente para mim, e para eles aceitável.

Depois de entender um pouco a logística do sol à pico às 15h, fui notar que a principal refeição do dia é o jantar, regado a queijos vinhos. Acontecimento cheio de rituais. Sentar-se somente depois do anfitrião, brindar olhando nos olhos, esperar o camembertpara limpar as cordas vocais e degustar o roquefort para abrir as papilas gustativas para junto com o vinho encerrar os pratos salgados e depois harmonizar com a glacée (sorvete do petit gateau). Depois de horas conversando sobre o dia, aleatoriedades, mas principalmente sobre a comida, encerrada a refeição – tudo uma delícia.

Se para os brasileiros o café da manhã ou o almoço é a principal refeição do dia, os franceses fazem do jantar mais que um evento gastronômico, um evento social.

A caminho de Versailles, fiquei imaginando o rosto da glória de Luiz XIV se confundindo com o rosto da vergonha da pequena criança agredida dentro do ônibus

Acompanhado de amigos que estão morando na França há mais de 10 anos, fomos ao palácio de Versailles, o maior do mundo. No caminho que presenciamos um momento bem desagradável: uma mãe sem saber como lidar com o filho, dá um tapa no rosto da criança. Coisa que eu nunca vi no Brasil, no rosto! Injuriados, refletimos porque a mãe não deu um tapa no bumbum, no rosto é tão degradante e falta de respeito. Minha anfitriã me revelou que já havia passado por uma situação parecida e teve uma resposta inusitada da mãe que batia na criança. “Existe coisa mais íntima que o bumbum?! No rosto todo mundo vê a marca do vermelho, causa vergonha, o bumbum não”. Pausa para reflexão.

Esses e tantos outros exemplos que eu poderia citar aqui só me fez pensar como somos diferentes, mas ainda precisamos conviver melhor com as “anormalidades” que às vezes só diferem do ponto de vista de quem está observando ou da cultura em que a pessoa está submetida.

*Este post foi originalmente publicado na Revista Dois Pontos

Um comentário em “Choque cultural e suas acepções

  1. Parabens pelo blog, estou me familiarizando muito com ele.
    Estou fazendo pesquisas sobre a Biodiversidade e economia sustentavel, e o que isso pode gerar em relação as diversidades culturais, etc..
    Gostaria que você escrevesse de como é Foz em seu lugar que ocupa, apenas por opinião, e diversidade de ideias, ligando esse paradoxo entre turistas estrangeiros e turistas brasileiros,
    Se isso não incomoda, passe pelas biodiversidades, comente sobre isso por favor, se isso não incomoda-lo, já que vi um potencial incrivel sobre suas matérias e interesses.
    desde já te agradeço.
    Abraço.
    Luciano Araujo
    Projeto Urbana Cultural . Curitiba . Pr

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