Um tratado sobre a realidade em a Ilha do Medo

Se entregar é a maneira de manter tudo em calma? Então, mostrar que você pode ser outra pessoa é a forma mais racional possível. É o que diz Scorsese no seu mais recente filme com Leonardo Dicaprio.
O roteiro de Laeta Kalogridis é insano, daqueles que chama o espectador para a briga de pensamento, reviravolta e um misto de desespero e fúria.
O filme foi baseado no grafhic novel de Dennis Lehane, mas a adaptação do cinema não segue a mesma estética criada pelo autor. Scorsese usa da sua iluminação para dar uma atmosfera mais pessoal ao seu trabalho.
Foi uma ótima escolha de Dicaprio, que tem se dedicado a filmes psicológicos e intimistas, mas sem esconder a preferencia pelos filmes de ação, desde Diamante de Sangue de Edward Zwick.
As cenas são cortadas e remixadas e dão a impressão de cortes súbitos ao longo da história, com morte, cenas de guerra e muito sangue, de graça.
Ilha do Medo, título usado impropriamente na tradução portuguesa, porém que poderia entregar toda a magia do filme se fosse usado a tradução de Shutter, usado no nome oficial em inglês.
Ódio púrpuro e iluminado, sangue de inocência e racionalidade. Qualquer forma de loucura, qualquer tipo de pensamento influente.
O ápice do filme é quando em um diálogo com os personagens Teddy Daniels e a personagem principal do enredo, a desaparecida paciente do hospital psiquiátrico, revelam “Depois que é considerado louco toda a racionalidade sua é prova da loucura”, frase que é desenvolvida no desenrolar do roteiro.
A partir daí, absurdidade geral, loucura e remédio são temas envolventes e reveladores. Até descobrir, atente-se para o spoiler, que a “Ilha do obturador” é realmente o que Danniels não queria que fosse, uma clínica para a sua loucura.

“Receba com simplicidade tudo o que acontece em sua vida”

Nunca fiz um comentário crítico sobre alguma obra dos irmãos Coen, confesso que não conheço a filmografia da dupla. Mas sobre a indisponibilidade de uma crítica razoavelmente boa em sites especializados é que decidi fazer a minha própria.

Fácil falar que o filme faz uma menção negativa a religião judaica, que em uma simples busca na web é possível saber que os irmãos nasceram sob esse contexto.

Somebody to love – Não é a montagem das cenas nem o posicionamento das câmeras que dá ao filme o ar punk. A música de Jefferson Airplane esquenta o esquema frio das cores usado pela fotografia. Ela está presente em algumas das principais cenas que envolvem o filho do professor de física Larry Gopnik, sendo a chave principal do filme. Confesso que conheci a música no clássico “Forrest Gump”, que dentre outras qualidades destaca a evolução musical dos Estados Unidos. Não entendo nada de música morte americana, porém a música deve ter um significado político e social forte.

Já que odeio ler spoilers em críticas vou tentar me abstrair deles.

Torá – Alguns amigos judeus já haviam me falado sobre um personagem que eles admiram bastante. O famoso rabino Rashi. Mas nunca fiquei curioso para pesquisar sobre ele, ou sobre saber das suas famosas frases de efeito minimalista. Acontece que Rashi apresentou um significado simples as complexas histórias do Torá e da Tanach – a bíblia hebraica.

Acontece que eu já tinha o conceito “Rashi-minimalista” em mente e pude esperar um filme com este significado quando vi na tela a seguinte frase: “Receive with simplicity everthing that happens to you”. É difícil de compreender que os diretores entregaram a grande sacada logo no primeiro frame.

O filme leva este conceito minimalista na produção de arte, no roteiro, nos diálogos simplórios, nas expressões dos atores, na montagem das cenas. A linguagem de que pouco é tudo aparece de forma muito espetacular em toda a composição.

Existem vários tipos de filmes. Aqui listo os que são feitos somente para o entretenimento, os que conseguem unir o entretenimento com a arte do significado, e os que usam da arte para apresentar um significado. O último exemplo citado pode ser difícil de engolir quando você quer só se divertir, e vê que precisa queimar um pouco dos neurônios para sacar a trama. “Um Homem Sério” é assim. Ele apresenta um roteiro que te prende, mas o contexto vai além, para uma aula de bom cinema e cultura judaica.

De propósito o título guarda outra sacada, o humor negro. Larry Gopnik é um grande homem sério, mas sua seriedade chega a ser escrachada por sua sinceridade, lealdade e loozer.

Não acho que o filme tenha uma continuação como li em outros sites, a forma inusitada como termina traduz bem o espírito da coisa. Receber com simplicidade o que acontece em nossas vidas, mesmo que a notícia que recebamos é a de morte. Daí a contradição otimismo X pessimismo.

Da história de brinquedo ao raciocínio lógico

Sem medo de parecer apaixonado, digo que Toy Story 3 é uma experiência de vida
Pensei que assistiria um filme ótimo, como qualquer outro da Pixar. Carros, Up e tantos outros permearam nossos sentimentos. Mas esqueci que Toy Story acomapanhou meu crescimento, e que ele é a menina dos olhos da Pixar.
Com a saga, eu não aprendi só a cuidar bem dos meus brinquedos. Essa foi só o cano de escape dos roteiristas para muitos outros panos de fundo.
Com a lucidez do Andy, e principalmente a fuga da realidade que ele usa ao adentrar no mundo dos brinquedos eu reforço muito a minha tese da mitopoética, iniciada por C.S. Lewis com as Crônicas de Nárnia.
Clive Staples Lewis disse certa vez, respondendo a uma leitora, que escrever para crianças não é subestimar sua inteligência, mas criar mundos para que os pequeninos saibam quando podem começar a brincar e o limite da realidade.
No primeiro filme, Andy é uma criança que está descobrindo a imaginação, e usa os brinquedos como ferramenta do processo criativo. No segundo, Andy está mais maduro, no sentido de usar a imaginação. O filme mostra bastante esse processo logo no começo das películas. Observe que no primeiro a brincadeira acontece no quarto do Andy e no segundo já se passa no quadrante protegido por Buzz. Entendo essas sequências como um avanço temporal na mente do Andy.
Cada filme é capaz de transmitir uma experiência pessoal. Conversando com amigos na saída da sala, na estreia de Toy Story 3, contávamos nossas alegrias e decepções com o cinema. Comentaram sobre a “barbaridade de Nárnia”, mesmo sem saber que sou fã. Mas pensando bem, não sou fã dos filmes, mas da série toda. Porém ver os filmes realizados na sala de projeção faz pensar-me que a obra cristã de Lewis está sendo transmitida para milhares de pessoas.
Toy Story tem significados diferentes para cada um. Para eu que cresci assistindo os filmes, e assistindo muitas vezes, é emocionante ver a continuidade dos personagens, Andy se despedindo da mãe, indo para a faculdade; talvez por ser só quatro anos mais velho; passei pelas mesmas fases. Descobri junto com o Andy a imaginação, criei mundos, deixei meus brinquedos e cresci, contudo sem deixar meu lado criança.

Sim, senhor presidente

Filme nacional tem Thiago Lacerda como Brad Pitt e Milton Gonçalves como Danny Glover só faltou a Amanda Peet para completar o roteiro americanizado
Milton Gonçalves é o primeiro presidente negro do país, mas também um presidente sem razão assim como todos que já passaram pelo planalto
Quando alguns brasileiros enchem a boca para falar “vou ao cinema assistir um filme nacional” logo no pensamento já se arma toda uma teia de raciocínio, como uma estética característica do novo cinema tupinikim alcançado em “Cidade de Deus” e “Linha de Passe”, por exemplo. Filmes que assisti no cinema.
Era o que eu esperava em “Segurança Nacional”, filme assinado por Roberto Carminati, desconhecido no cenário do cinema no Brasil, porém já assinou vários documentários como “A Amazônia: De Gazlvez a Chico Mendes”. O filme foi rodado em 2006 e chegou só agora nas telas de cinema, tem a lista de atores todos globais, mas por incrível que pareça a Globo Filmes não está por trás do projeto inicial, só foi a responsável pela trilha sonora da película.
O filme decepciona porque parece que andou na contra mão dos já produzidos no território do samba. Não segue uma estética de cortes e edição definida, não estabelece alguns planos de enquadramento, uso roteiro pífio e falho. Mas o principal e o que mais chama a atenção é a semelhança que o filme dá aos atores um ar hollywodiano, no sentido do roteiro, sentido que os filmes brasileiros nunca antes abordaram.
Lacerda, sem graça, é o típico salva pátria norte americano

Thiago Lacerda é o típico herói que salva a barra da nação dos terroristas, Milton Gonçalves é o presidente ufanista que quer morrer na capital do seu amado país. Ângela Vieira é a calculista e diretora da Agência de Inteligência, mera coincidência com algum filme que você já tenha assistido? É claro que sim, mas nunca vimos essa história, antes por ela se passar no Brasil.

Por mais que o filme seja falho, apresenta sequencias fantásticas. Por um momento o diretor de fotografia mostrou algo que sempre tive curiosidade de ver, o que para mim valeu o ingresso ao cinema, a visão do Palácio do Alvorada, não de fora como estamos cansados a ver, mas de dentro para fora, como nunca antes tinha visto. No momento em que o Brasil está sendo ameaçado o primeiro presidente negro do país coloca a mão na parede de vidro e o ângulo mais perfeito do cinema nacional é criado, Milton Gonçalves parece tocar na gigantesca bandeira da esplanada.
Outro momento quase emocionante, porém com pouco tratamento de arte e imagem, é quando o presidente discursa em rede nacional e fala que o país está sofrendo ataque de terroristas, impossível não lembrar de “Armagedon”, quando o presidente norte americano discursa inflamadamente reunindo milhares de telespectadores ao redor do mundo. Porém a sequencia nacional poderia ser mais aprofundada no quesito artisticamente.
Resumindo, se no Brasil tivesse o “Frambuesa de Ouro” Thiago Lacerda com certeza ganharia o de pior ator e o “Força Nacional” ficaria par a par com “As melhores coisas do mundo”, outro grande erro nacional.
Mas sou racional e sei que é errando que se aprende. O Brasil já caminha algum tempo para um novo cinema, está tentando achar seu rumo. A imprensa é um pouco culpada sim por voltar seus olhos tanto para fora, e as organizações Globo tentanto nacionalizar a cultura Pop, coisa que todos os meios de comunicação deveriam fazer.
Ps. O filme tem apoio da Defesa Civil e da Presidência da República, coisa normal nos Estados Unidos.